“As zonas frutíferas do espírito se situariam entre o mar das imagens e o deserto da solidão”. Detlev Linke
Ao realizar um estudo sobre a origem da imagem, é necessário que se reitere a importância do papel da luz no seu processo de nascimento. Também muito pertinente, é ponderar que na ausência do nosso olhar, ou na ausência de nossa consciência, as imagens seriam alguma outra coisa ou absolutamente nada. Assim, é interessante que nos questionemos sobre o fato de que já que o olhar é um gesto do corpo, assim como o é a consciência, então, as imagens seriam criaturas produzidas pelo corpo, possíveis aspirantes à uma existência em autonomia a esse corpo, cuja pretenção seria constituir instantes em que exercem poder sobre si mesmas.
Baseando-se na afirmação do sociólogo da imaginação D. Kamper, de que o corpo vem antes da imagem e da consciência, supondo que o homem primitivo passava suas noites enclausurado temendo as criaturas selvagens, assim imaginando – Kamper define a força da imaginação (Einbildungskraft) como momento criativo de rebelião das imagens e resistência de um pensar corporal (Körperdenken) – coisas baseadas no que estaria ouvindo no escuro soturno da noite; pode-se intuir que é nesse tempo que as imagens endógenas – geradas pelo universo interior – começam a surgir, portanto, a primeira imagem teria nascido do medo da morte, ou mais precisamente do medo de morrer.
Acerca das primeiras formas de representação e a função mágica da utilização das imagens exógenas – imagens criadas para transitar no universo exterior – nos ritos preparatórios de caça do homem primitivo, o sociólogo e pensador, E. Morin aponta que desde então a imagem não é só simplesmente uma imagem por já conter em si, o tempo todo, a presença do duplo, ou seja, do ser representado; e é precisamente por isso que permite, apartir do seu intermédio, agir sobre esse ser. Essa ação, ainda segundo Morin, “é propriamente mágica: rito de evocação pela imagem, rito de invocação à imagem, rito de possessão sobre a imagem (enfeitiçamento).” (E. Morin:1988:98-99)
No entanto, sabe-se que esse potencial de enfeitiçar da imagem até hoje é utilizado abertamente pelos mídia. Isso não mais se trata de um processo de apropriação de coisas, mas de suas imagens, as não-coisas. Ao mesmo tempo isto lança uma luz, sobre os mecanismos sensoriais de vinculação e seus efeitos cognitivos, permitindo tentar comprêende-los melhor. No livro Jornalismo e desinformação, o jornalista L. Serva, utiliza o termo hard-users pra descrever o que seriam os zumbis contemporâneos que são enfeitiçados pelas imagens ao extremo, e assim, chegam ao nível de perder sua própria identidade, ao permitir que essa se funda psicologicamente ao universo simbólico da mídia eltrônica.
É nesse processo que nasce o ídolo (eidolon), através do que seriam as “devorações cotidianas anônimas”, exercendo um enorme poder de invasão ao fazer o homem projetar em uma imagem todo o seu poder de ser afetivo. Assim, B. Cyrulnik , neorologista, psiquiatra e psicanalista, fala de um enfeitiçamento do mundo, de um encantamento e de uma captura a partir das imagens que geram um tipo de ímã inseparável ao conhecimento público contemporâneo (modismos, por exemplo): “As imagens visuais e as imagens sonoras realizam grandes atuações a fim de cativarem a atenção do outro. Assim que se pode sugerir uma imagem visual ou auditiva, muda-se de registro; cativa-se a atenção, desencadeando uma representação. ‘A visão é a arte de ver coisas invisíveis’[], com a condição de saber evocar imagens. A audição permite, também ela, ver coisas invisíveis, com a condição de saber articular as palavras que as fazem ver.” (B. Cyrulnik:1999:97-98.)
Dessa forma, pode-se entender que o poder de impacto de uma imagem advém de seu enorme leque de referências a outras tantas imagens. Assim, a imagem possui, de acordo com seu significado, a função de presença mágica, representação artística e de simulação técnica, e dessa forma, existe se intersectando multiplicadamente em superposições. Segundo o Dr. Norval Baitello Jr., toda imagem é constituída de uma outra que a precede, e cada pedaço dessa referência contribui para o grau do seu poder de ser apreendida; ao se apropriar da imagem que a constitui a imagem se torna mais poderosa, num processo denominado iconofágico.
Torna-se praticamente impossível uma existência sem imagem, pois até mesmo os sentimentos que constituem o pano de fundo de cada instante mental podem ser classificados como imagens. Por sinalizarem aspectos do estado do corpo, assim podendo designar um padrão mental em qualquer modalidade sensorial, como, por exemplo, uma imagem sonora. Ao buscar uma compreensão cognitiva da imagem, o neurocientista português, A. Damásio ressalta a grande importância das imagens na construção do pensamento humano: “Refiro-me ao termo imagens como padrões mentais com uma estrutura construída com os sinais provenientes de cada uma das modalidades sensoriais. A palavra imagem não se refere apenas a imagem ‘visual’ , e também não há nada de estático nas imagens… Em suma, o processo que chegamos a conhecer como mente quando imagens mentais se tornam nossas, como resultado da consciência é um fluxo contínuo de imagens, e muitas delas se revelam logicamente inter-relacionadas. O fluxo avança no tempo, rápido ou lento, ordenadamente ou aos trambolhões, e às vezes segue não uma, mas várias seqüências. Às vezes as seqüências são concorrentes, outras vezes convergentes e divergentes, ou ainda sobrepostas. Pensamento é uma palavra aceitável para denotar esse fluxo de imagens.” (A. Damásio: 2000: 402-403)
Ademais, a imagem como sinônimo de representação é descrita por H. Belting como em processo de troca simbólica entre corpo e imagem no momento em que “a imagem devolveu ao morto um meio no qual ele encontrasse os vivos e seria por eles recordado. O corpo-imagem, como corpo-de-troca, pertencia aos mortos ausentes (…) O paradoxo da imagem, de fazer presente uma ausência, funda-se essencialmente na interação entre imagem e mídia: a imagem responde pela ausência, estando, contudo, ao mesmo tempo, presente, em sua mídia portadora atual, no espaço dos vivos que são seus observadores: observar imagens significa também animá-las” (Belting:2000:8). Desse modo, com as imagens tornam-se impossíveis o recordar e o esquecer e é sob esse processo cíclico de loop infinito que nosso imaginário trabalha continuamente.
De sentido ambíguo, “imagem” significa, entre outras coisas, um estado de estar presente, representar e simular uma coisa ausente. De acordo com Kamper, entenda-se “estar presente” como uma dimensão mágica, “representar” como reunir forças de imitação e o poder de colocar as imagens como imagens com inúmeros disfarces e “simular” como referente a iludir. Nós homens vivemos a condição de “morto-vivo” imposta nas imagens do mundo, nas nossas imagens do mundo e nas que foram feitas antes dessas, e dessas alimentadas das que nasceram antes, e assim sucessivamente. E essa aparente dificuldade de conseguirmos discernir o que está vivo ou morto é aderente às imagens, pelo menos no momento do ápice de sua pura simulação sem referência anterior. Mas, se, ao contrário, teoricamente não podemos falar de imagem como “simulação”, então talvez fosse aceitável a proposta do filósofo e sociológo da cultura, Walter Benjamin de recorrer a “imagens do pensamento” (Denkibilder) as quais permitem também que se decifre a nossa existência profana como máquina de criar enigmas.
Assim, já é tempo, então, de sair da “autoproduzida caverna das imagens” (Kamper:2002:8.) que tende, cada vez mais, a ficar menor. E não que isso venha a ser uma tarefa fácil, já que uma existência sem imagem, aparentemente, seria vazia. Kamper afirma em seu livro “Cosmo, Corpo, Cultura”, que “a existência sem imagem é falência, insistência na incomensurabilidade”, e conclui, “procura-se a saída abrindo caminho entre as imagens. Procura-se algo além das imagens nas próprias imagens. Dado, porém, que as imagens são “planas”, essa busca de profundidade não é fácil e os mencionados distúrbios das imagens podem ajudar.”